O sonho (impossível?) de colonizar Marte

É fácil ficar maravilhado e contagiado com a ideia de que será possível colonizar Marte já nas próximas décadas, mas a realidade revela um panorama bastante mais complicado e potencialmente impossível durante muitas centenas de anos… ou até mesmo para sempre.

Eu faço parte do grupo de pessoas que cresceu com o sonho de ser astronauta, e vibrar com cada episódio do Cosmos (o original, de Carl Sagan) que passava na TV. Por isso mesmo, não me custa nada estar na linha da frente a sonhar de forma optimista quanto à possibilidade de superarmos todas as adversidades e dificuldades na aventura da exploração especial; e também ficar entusiasmado com os grandes avanços que a SpaceX vai fazendo, e as intenções de nos próximos anos estar a fazer chegar a Starship à Lua, e depois a Marte. No entanto, a insistência de Musk de “pintar” o planeta vermelho como sendo o destino ideal para os colonizadores humanos, poderá ser um grande equívoco.

Estamos numa fase em que, o simples acto de chegar a Marte é um desafio técnico enorme, mas mesmo que isso seja superado – em termos de permitir uma viagem interplanetária de longa duração, segura para os astronautas em termos de protecção contra a radiação – poderemos ficar muito desapontados ao chegar ao destino, e ver que aquilo não é nada do que se está à espera, ao estilo de um aluguer no Airbnb que nos prometia uma suite de luxo, e se revela ser um terreno baldio. Marte pode ter sido ilustrado como sendo uma alternativa à Terra por décadas de histórias e filmes de ficção científica, mas a realidade é que aquilo pouco mais é que um calhau desolado que estará continuamente a tentar matar qualquer humano que lá ouse pousar os pés.

A atmosfera de dióxido de carbono está quase no limite de nem poder ser considerada uma atmosfera, nada fazendo para proteger contra a radiação solar, e com uma pressão atmosférica de 0,6% da da Terra – na prática fazendo como que seja quase praticamente igual a estar no vácuo do espaço. As temperaturas também estão longe de ser convidativas, com uma temperatura média de -63ºC e podendo chegar aos -123ºC (ao menos não haverá problemas a armazenar vacinas contra Covid-19) e, se tudo isso não for suficiente, temos ainda o pequeno grande detalhe de que a gravidade em Marte é de apenas 37,5% a da Terra, o que faz com que uma pessoa de 80 kg pesasse apenas 30 kg.

Ou seja, tudo isto, combinado, faz com que Marte seja tão “convidativo” para potenciais colonizadores como qualquer asteróide ou qualquer outro calhau espacial que se encontre no espaço, e a única coisa que oferece é um chão sólido onde se poderiam construir coisas (e potencialmente metano e gelo). Mas tendo em conta todos os contras, poderá ser mais convidativo considerar propostas como as cidades flutuantes em Vénus, onde não se teria “chão” mas teríamos condições bastante mais atractivas. A uma altitude entre os 50 e 60 mil metros em Vénus, encontramos aquelas que poderão ser as melhores condições para humanos fora do planeta Terra. Temos uma pressão atmosférica que será equivalente a estar no topo do Kilimanjaro, temperaturas de 20 a 30ºC, e uma gravidade quase idêntica à da Terra (91%). Um astronauta poderia lá permanecer apenas com uma máscara de oxigénio e um fato contra elementos químicos. Temos ainda a vantagem adicional que mesmo a esta altitude estariam protegidos das radiações, e que teriam exposição solar 40% superior à que temos na Terra, ideal para gerar energia.

Não podemos, nem devemos, subestimar a nossa capacidade de superar todo o tipo de desafios que podem ser apresentados como “impossíveis”. Mas olhando-se para Marte, temo que o sonho de por lá se criarem colónias terrestres a médio ou longo prazo acabam por pertencer (ainda) ao reino da ficção científica, especialmente tendo em conta que mesmo que se lide com a questão da temperatura e protecção contra a radiação, não estou a ver como se poderia solucionar o problema da baixa gravidade, que iria provocar alterações substanciais a quem por lá permanecesse por longos períodos, e nem sequer se sabendo qual seria o efeito a nível reprodutivo e de gestação.

O sonho de apontar Marte como destino ideal para servir de backup da raça humana em caso de algum incidente de extinção em massa na Terra, parece estar a ser extremamente sobrevalorizado, e revelar-se completamente impraticável.

Publicado originalmente no AadM

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