Fraude na quilometragem: a maioria dos compradores não sabe o que fazer

Um novo inquérito da carVertical revela que 75,8% dos compradores europeus de carros usados não sabem onde denunciar um veículo com quilometragem adulterada.

O estudo, que abrangeu quase 8000 condutores em 18 países europeus, expõe uma realidade preocupante: a maior parte das pessoas não sabe como reagir quando se depara com uma fraude deste tipo, não espera reaver o dinheiro perdido e desconhece a legislação que, afinal, as protege.

Em Portugal, o problema tem uma dimensão concreta. Entre setembro de 2024 e agosto de 2025, a carVertical verificou que 3,78% dos veículos analisados na plataforma apresentavam sinais de adulteração da quilometragem, o que coloca o país na 16.ª posição no Índice de Transparência da empresa. Quando a adulteração existe, não é marginal: em média, são retirados 92 900 quilómetros do conta-quilómetros. O impacto directo no valor do veículo e nos custos de manutenção que o comprador vai enfrentar é, por isso, muito significativo.

Quase um terço dos compradores europeus (30,3%) já comprou um carro com quilometragem adulterada ou conhece alguém que passou por essa situação. Outros 31,8% não têm a certeza, e apenas 38% afirmam que isso nunca aconteceu a elas nem a ninguém do seu círculo. Estes números, importa sublinhar, reflectem a exposição ao longo de toda uma vida de compras, frequentemente envolvendo mais do que uma transacção.

A confiança na possibilidade de recuperar o dinheiro é praticamente nula. No inquérito, 87,3% dos compradores europeus acreditam que não conseguiriam reaver o valor perdido em caso de fraude: 44,3% dizem-se pouco confiantes e 43% nada confiantes. Apenas 12,7% acreditam que seria possível recuperar o investimento. “Um direito legal só nos protege se sabemos que existe. Neste momento, a maior parte dos compradores simplesmente não sabe onde se dirigir quando se apercebe de que comprou um veículo com quilometragem adulterada”, explica Matas Buzelis, especialista em mercado automóvel da carVertical.

A lei portuguesa é mais robusta do que a maioria imagina. O Artigo 217.º do Código Penal tipifica a adulteração deliberada da quilometragem como fraude, punível com até três anos de prisão ou multa. No entanto, 45,1% dos inquiridos admitem desconhecer a penalização máxima, e 7,1% chegam mesmo a acreditar que a prática nem sequer é ilegal. No total, apenas 52,2% dos participantes deram uma resposta correcta, ao identificarem a pena de prisão ou a multa como consequências previstas na lei.

O problema não é apenas de consciencialização individual. A fragmentação dos registos de veículos entre países facilita que carros importados cheguem ao mercado praticamente sem histórico rastreável. “Porque os históricos dos veículos continuam divididos entre diversos países, estes dados fragmentados permitem que os veículos adulterados escapem entre os pingos da chuva”, nota Buzelis, acrescentando que o Pacote de Inspeção Técnica de Veículos da União Europeia, actualmente em discussão no processo legislativo europeu, poderá melhorar a partilha de dados entre fronteiras. Até lá, a verificação prévia do histórico do veículo continua a ser a protecção mais eficaz ao alcance de qualquer comprador. “Uma lei forte só impede a fraude se os compradores e os vendedores souberem que é de facto aplicada. Verificar um carro continua a ser a protecção mais fiável para qualquer comprador”, conclui o especialista.

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