Cobrar para desbloquear funcionalidades de software é prática corrente na indústria automóvel, mas a Tesla prepara-se para ampliar isso à utilização do próprio hardware, cobrando para desbloquear a capacidade total da bateria que já está instalada no veículo.
Já terão sido muitas as pessoas que ficaram indignadas por pagar centenas ou milhares de euros para adicionar um extra ao seu automóvel que corresponde a uma simples activação de uma opção num menu escondido de configuração; mas nos Tesla isso vai passar a ser cada vez mais comum.
Actualmente, os Tesla já vêm equipados com o hardware necessário para o modo de autopiloto em que conduz sozinho nas vias rápidas, mas para o fazer é necessário pagar milhares de dólares para activar essa opção. Mas o caso poderá começar a causar mais preocupações quando se descobre que também vai ser aplicado à própria bateria. O Model S 70 vem com uma bateria de 70kWh e uma autonomia anunciada de 386km, mas quem pagar $3000 poderá desbloquear o modo de 75kWh que prolonga essa autonomia para lá dos 400km – a questão é que a bateria é exactamente a mesma.
Se por um lado se pode entender o desejo (necessidade?) da Tesla facturar o mais possível, por outro lado entra-se num campo perigoso… Já imaginaram o que seria esta mesma fórmula aplicada aos smartphones ou televisores? Poderíamos ter smartphones com autonomia para 8h, mas seríamos convidados a pagar mais uns euros para desbloquear o acesso à capacidade total; ou então veríamos surgir uma caixa a pedir para pagar mais uns euros para se poder ter acesso ao desempenho total do CPU enquanto se jogasse um jogo mais exigente; ou então ainda, que tal um televisor que só permitisse sintonizar 5 canais, mas que por apenas mais alguns euros já deixaria sintonizar umas dezenas (para não se entrar em campos ainda mais ridículos, de pagar mais para ter acesso a uma gama de cores alargada… entre outras potencialidades em que nem quero entrar para não dar ideias a ninguém!)
Parece-me fácil prever o que opções como estas irão incentivar: um mercado paralelo de “desbloqueios” não oficiais, que muito apreciará o dinheiro que irá ganhar à custa destas coisas. Se actualmente já temos empresas especializadas em mudar/afinar o firmware dos carros de forma a aumentar a sua potência, não é difícil imaginar que depressa se adaptariam a desbloquear todo o tipo de funcionalidades que pudessem estar presentes (já o fazem para muitos veículos). Em segundo lugar, acaba por ser mais um motivo que irá começar a pesar contra a aquisição de um carro próprio. Se começamos a seguir num sentido em que a compra de carro própria acaba por ser um aluguer constante, para muitos casos mais sentido fará passar a usar serviços estilo Uber com frotas de carros autónomos – em que pagamos só pelo transporte e se dispensa o pesado investimento da aquisição do veículo.
Será certamente esse o objectivo final… mas seria simpático que não se tivesse que chegar lá à custa deste tipo de tácticas…


