
Em Portugal, 7,1% dos veículos usados verificados pela carVertical entre 2025 e 2026 apresentam sinais de uso intensivo, ou seja, percorreram mais de 36 mil quilómetros por ano.
Um número que serve de alerta para quem está no mercado à procura de um carro em segunda mão e se fia apenas no que vê.
A quilometragem continua a ser o primeiro dado que os compradores analisam, e com razão. Mas os especialistas avisam que esse número, isolado, conta apenas metade da história. O tempo que demorou a ser atingido é igualmente relevante. Um carro com 150 mil quilómetros feitos em dez anos é uma coisa; o mesmo registo em quatro anos é outra completamente diferente. Veículos que serviram de táxi, TVDE, aluguer ou entregas ao domicílio podem ter um aspecto de carro particular normal, mas carregam consigo um desgaste acumulado nos travões, na suspensão, na transmissão, no interior e em múltiplos componentes mecânicos que não é visível à primeira vista.

O modelo com maior proporção de uso intensivo em Portugal é o Peugeot 5008, com 24,2% dos exemplares analisados a exceder o limite dos 36 mil quilómetros anuais. Seguem-se o Peugeot 2008 com 23,1%, o Peugeot 308 com 14,3%, o Mercedes-Benz Classe C com 14,1% e o Mercedes-Benz Classe E com 13,7%. A presença forte das marcas Peugeot e Mercedes-Benz nesta lista não é coincidência: são veículos valorizados pelo conforto, eficiência e capacidade para aguentar quilómetros, o que os torna populares tanto em frotas profissionais como entre compradores particulares.
“Se um veículo relativamente novo tem uma quilometragem estranhamente elevada, é muito provável que tenha pertencido a uma frota de empresa ou sido utilizado para TVDE, serviços de entregas ou outros serviços. Os compradores não se devem deixar levar por uma aparência cuidada ou apenas pelo preço. É imperativo inspecionar o veículo de forma exaustiva numa oficina, pois pode vir a precisar de reparações custosas a curto prazo”, explica Matas Buzelis, especialista em mercado automóvel da carVertical.
Ricardo Silva, director comercial da AutoLine, reforça que o problema principal não está na quilometragem em si, mas na forma como os quilómetros foram feitos e no cuidado que o veículo recebeu. “Um carro com quilometragem elevada, mas sujeito a manutenção regular e utilizado sobretudo em autoestradas, pode muitas vezes estar em melhor estado do que outro com metade da quilometragem, mas com manutenção deficiente ou utilização mais exigente”, afirma. Silva alerta também para as limitações de uma simples inspecção visual: “Nem sempre é possível identificar um veículo que sofreu um uso intensivo apenas através de uma inspecção visual. O desgaste do volante, dos bancos, dos pedais ou de outros componentes do habitáculo pode dar algumas pistas, mas muitas destas peças podem ser facilmente substituídas ou renovadas. Por isso, é essencial consultar o histórico de manutenção do veículo, verificar a documentação, realizar um diagnóstico electrónico e, sempre que possível, pedir a um profissional independente que inspeccione a viatura.”
Há ainda uma camada adicional de risco quando o veículo vem do estrangeiro. A carVertical identificou que uma parte significativa dos carros com registo de táxi detectados eram importados, o que sugere que alguns entraram no mercado de usados como veículos comuns depois de uma vida profissional intensa noutro país. Como os países não partilham dados automóveis de forma sistemática, rastrear esse historial é difícil. “Um automóvel pode ter sido usado de forma intensiva num país, aparecendo posteriormente noutro mercado como um veículo usado normal. Uma vez que os dados históricos não viajam com o veículo, os compradores têm de escolher com base na aparência, no preço e na leitura da quilometragem, o que é francamente insuficiente”, sublinha Buzelis.
Para ajudar a colmatar esta lacuna, os relatórios da carVertical incluem uma secção de Hábitos de Condução, onde é possível perceber em que períodos o carro acumulou mais quilómetros e se houve fases de uso invulgarmente intensivo. A empresa recolhe dados de mais de mil fontes globais, incluindo autoridades policiais, registos nacionais, instituições financeiras e anúncios classificados em 37 países, transformando essa informação em relatórios históricos acessíveis a particulares e empresas. O estudo que originou estes dados analisou relatórios de veículos adquiridos pelos utilizadores da plataforma entre Janeiro de 2025 e Maio de 2026.
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