
Reclamar um lugar de estacionamento com os piscas, buzinar à porta de um amigo em vez de tocar à campainha ou piscar as luzes para avisar de um radar são hábitos tão naturais em Portugal que raramente os questionamos.
Mas o que parece óbvio em Lisboa pode ser interpretado de forma completamente diferente em Helsínquia, Bucareste ou Londres, e um estudo da carVertical, empresa de dados de tecnologia automóvel, revela que quase metade dos condutores reconhece que o desconhecimento da cultura de condução local pode criar situações perigosas na estrada.
O estudo indica que 47% dos condutores identificam a falta de conhecimento da cultura de condução local como um fator que pode gerar situações perigosas, e 33% vão mais longe, considerando que esse desconhecimento pode mesmo causar situações de risco efectivo. Apenas 10,9% dos inquiridos acham que não há perigo nenhum, e 8,5% não têm a certeza. São números que fazem pensar, especialmente para quem planeia fazer estrada pelo estrangeiro durante o verão.
Um dos exemplos mais ilustrativos é o sinal de máximos. Usado em quase toda a Europa para avisar de radares, acidentes ou obstáculos na estrada, o seu significado varia bastante consoante o país. Na Roménia, piscar as luzes é quase uma linguagem própria: pode ser um cumprimento entre colegas de profissão, como camionistas ou taxistas, um sinal de admiração perante um carro raro, ou, se for longo e agressivo, um insulto directo a quem se meteu à frente de forma brusca. No Reino Unido, pelo contrário, o mesmo gesto é quase exclusivamente um sinal de cortesia e cooperação. Na Lapónia finlandesa, fazer sinal de luzes a um veículo que se aproxima pode simplesmente significar “atenção, há veados na estrada”.
A buzina é outro sinal com interpretações radicalmente diferentes. Em muitos países, está reservada para situações de perigo imediato ou para expressar impaciência. Mas nas zonas rurais da Croácia, Roménia e França, uma buzinadela suave pode ser apenas um cumprimento a um vizinho. Em Espanha, buzina-se para reconhecer amigos ou familiares na estrada. Em França e Portugal, é completamente normal buzinar à chegada a casa de alguém, em vez de tocar à campainha. A Itália é talvez o caso mais curioso: no norte do país, buzinar é mal visto, enquanto no sul faz parte da comunicação diária na estrada. “Devido às coimas de baixo valor e às tolerâncias dos radares, existe uma regra não escrita na Bélgica, Chéquia, Eslováquia, Lituânia e Letónia que permite conduzir ligeiramente acima do limite de velocidade. Já na Escandinávia, a mais ligeira violação do limite representa uma multa pesada. Muitos condutores que visitam esses países acabam por receber uma carta com a coima em casa”, explica Matas Buzelis, especialista de mercado automóvel na carVertical.
Há, no entanto, alguns sinais que funcionam de forma universal. As luzes intermitentes de perigo são usadas para mostrar gratidão na Lituânia, Polónia, Eslováquia, Chéquia, Roménia, Croácia e noutros países da Europa Central e de Leste. Uma mão erguida é um sinal de agradecimento reconhecido em todo o continente. Uma fila de carros decorados a circular pela cidade com buzinadelas prolongadas e em alto volume só pode significar uma coisa: casamento. Esta situação é universalmente aceite e não é considerada agressiva na Chéquia, Eslováquia, Sérvia, Hungria, Polónia, Roménia, Lituânia e Letónia. Em Portugal, Espanha, Itália e Roménia, a buzina é também usada para celebrar vitórias desportivas ou durante manifestações públicas. Nem tudo é, porém, inofensivo: “Em Itália, alertar sobre a presença policial com sinais de luzes é estritamente proibido por lei”, avisa Buzelis.
O estudo mostra ainda que os condutores conhecem bem as regras não escritas do seu próprio país, com 60% dos inquiridos a afirmar isso mesmo. Mas essa confiança dissolve-se quando viajam para o estrangeiro, com cerca de dois terços a admitir que encontram hábitos de condução pouco familiares com alguma frequência. Para quem parte de férias este verão, a recomendação é clara: antes de pesquisar as tarifas das portagens, vale a pena perceber também como se comunica na estrada no país de destino. Em Portugal, por exemplo, quem visita o país deve saber que reclamar um lugar de estacionamento prestes a ficar vago com os indicadores de mudança de direcção é uma convenção quase sempre respeitada, e que entrar numa faixa de Via Verde nas autoestradas sem o respectivo dispositivo não só gera coimas pesadas como desperta pouca simpatia nos condutores locais.
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