
Comprar um carro usado com o conta-quilómetros adulterado pode custar aos portugueses, em média, mais 20,1% do valor real do veículo.
Um estudo da carVertical, empresa especializada em dados do setor automóvel, revela que esta forma de fraude está longe de ser um problema residual e continua a penalizar fortemente os compradores de automóveis em segunda mão em toda a Europa.
Os números para Portugal são claros: de todos os veículos inspecionados pela carVertical no país, 5,2% apresentavam quilometragem manipulada, com os conta-quilómetros a registarem, em média, menos 55 500 quilómetros do que a realidade. Na prática, um carro anunciado por 20 000 euros com a quilometragem adulterada pode valer apenas cerca de 16 700 euros. Quem compra paga por um estado de conservação que o veículo simplesmente não tem.
“Ao diminuir os quilómetros, os vendedores desonestos podem criar a ilusão de que um veículo está em melhor estado do que realmente está. Quanto mais caro for o carro, mais dinheiro os compradores podem perder. Isto é especialmente relevante para quem compra veículos usados mais recentes e de gama alta”, afirma Matas Buzelis, especialista no mercado automóvel da carVertical.

O impacto da fraude no preço dos veículos varia bastante consoante o país. Na Europa de Leste, o efeito é mais contido: a Sérvia regista o impacto mais baixo do estudo, com uma inflação de preços de apenas 9,3%, apesar de 3,9% dos carros apresentarem quilometragem manipulada e de os veículos terem sido “rejuvenescidos” em média 53 500 quilómetros. Já na Europa Ocidental o cenário é mais preocupante. A Alemanha lidera com um impacto de 49,3% no valor dos veículos, embora apenas 1,7% dos carros inspecionados apresentassem adulteração, com uma redução média de 34 400 quilómetros. Bélgica e França surgem logo a seguir entre os países mais afetados.
A dimensão do problema alemão tem consequências que vão além das fronteiras do país. A Alemanha é o maior exportador de automóveis usados da União Europeia, com cerca de dois milhões de veículos a saírem do país anualmente para outros Estados-Membros. Seguem-se a Itália, a Bélgica e os Países Baixos. Quando estes mercados limitam a partilha de dados sobre o histórico dos veículos exportados, os compradores noutros países ficam sem informações essenciais. “Quando os condutores compram carros cuja quilometragem real é significativamente superior à anunciada, não só pagam em excesso, como também podem ter dificuldade em planear corretamente a manutenção, ter avarias mais frequentes ou até acabar por conduzir um veículo inseguro”, alerta Buzelis.
A solução passa por verificar sempre o histórico do veículo antes de qualquer compra. “Uma vez que nem todos os registos de quilometragem estão digitalizados, pode ser bastante difícil determinar se o conta-quilómetros de um veículo foi adulterado. Além disso, os países ainda não trocam dados sobre veículos de forma consistente, o que deixa os compradores de carros usados na ignorância”, explica Buzelis, que considera que os governos europeus ainda estão aquém do necessário no combate a este problema. O estudo da carVertical analisou veículos fabricados entre 2005 e 2025 em 16 países europeus, com base em relatórios de histórico consultados entre abril de 2025 e março de 2026.



