Fraude na quilometragem cresce em Portugal no mercado de usados

Dois em cada cinco carros usados vendidos em Portugal no último ano estiveram envolvidos num acidente ou apresentavam danos ocultos.

É uma das conclusões do Índice de Transparência 2026 da carVertical, empresa de dados automóvel que analisa anualmente os mercados de veículos usados na Europa e os riscos que os compradores enfrentam em cada país.

Portugal ficou em 15.º lugar num total de 23 mercados avaliados, subindo uma posição face ao ano anterior. A vizinha Espanha ficou em 14.º, a França em 5.º e a Alemanha em 2.º. O estudo baseou-se em relatórios históricos de veículos adquiridos por clientes entre setembro de 2025 e agosto de 2026, considerando seis indicadores: percentagem de veículos com quilometragem adulterada, valor médio dessa adulteração, percentagem de veículos com danos, valor médio dos danos, taxa de importação de carros usados e antiguidade média dos veículos verificados.

No que diz respeito à adulteração da quilometragem, há uma tendência contraditória em Portugal. A média de quilómetros adulterados desceu para 82 131 km, menos 11,6% do que os 92 928 km registados no ano passado. No entanto, o número de veículos com o conta-quilómetros adulterado aumentou: a percentagem subiu de 3,8% para 5,5%. Ou seja, há mais casos de fraude, mas com manipulações individualmente menos extremas.

Quanto aos danos, os valores mantiveram-se relativamente estáveis. Este ano, 40,7% dos veículos verificados em Portugal tinham registo de danos, um valor muito próximo dos 40,3% do ano anterior. O valor médio dos danos baixou ligeiramente, de 3957 euros para 3685 euros. “Os condutores ainda não contam com informação suficiente sobre o custo real da fraude na quilometragem. Um conta-quilómetros adulterado, para além de enganar o comprador, inflaciona directamente o preço pago pelo carro, que vale menos do que é anunciado. O mesmo acontece com os danos. A percentagem de veículos danificados e a grandeza desses danos indicam em que medida um carro é seguro ou inseguro. Por isso, aceder a estes dados não é apenas uma questão financeira, mas também uma questão de segurança física para as pessoas que conduzem esses veículos diariamente”, afirma Ramūnas Pletkus, especialista de dados na carVertical.

As importações também abrandaram em Portugal. Os veículos trazidos do estrangeiro representaram 53% do total de veículos verificados este ano, uma queda significativa face aos 61,5% do ano passado. A antiguidade média dos carros verificados aumentou de 10 para 10,5 anos.

Na lista dos mercados mais transparentes, o Reino Unido mantém a liderança, com apenas 2,4% dos veículos verificados provenientes do estrangeiro e 4% com quilometragem adulterada. A Alemanha fica em 2.º, a Suíça em 3.º, a Finlândia em 4.º e a França em 5.º. “Os países que lideram o índice partilham as mesmas características: recorrem menos às importações, possuem economias mais robustas e as suas instituições disponibilizam os dados automóveis aos compradores de forma mais eficaz. É esta combinação que os mantém no topo, ano após ano”, explica Pletkus.

No extremo oposto estão a Ucrânia, a Bulgária e a Letónia. A Ucrânia mantém-se no último lugar desde 2024, com 76,3% dos veículos verificados de origem estrangeira, a maior taxa de importação de todos os mercados analisados. A Bulgária registou uma das maiores quedas no índice, penalizada por uma taxa de quilometragem adulterada de 10,4% e por 42,8% dos veículos com registo de danos. A Letónia fecha o grupo dos três últimos, com uma taxa de importação de 69,8% e 58,5% dos veículos com registos de danos. “A partilha de dados a nível transfronteiriço continua a ser um dos principais problemas nestes mercados. Os condutores da Europa de Leste podem ter dificuldade em aceder a informações básicas sobre veículos importados da Alemanha, Bélgica, Itália ou outro país da Europa Ocidental, uma vez que estas informações são mantidas em registos nacionais e privados, não acompanhando o veículo na sua viagem para fora do país”, conclui o especialista.

O estudo completo e a metodologia estão disponíveis em carvertical.com/pt/transparency-index.

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